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Cantoras crescem e arrebatam quando trocam o ‘chip’

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Dez discos gravados em estúdio por dez importantes cantoras do Brasil – quase todos com músicas inéditas – foram despejados no mercado fonográfico nacional em pouco mais de dois meses em período situado entre 29 de março e 7 de junho. Foi um boom tão espontâneo quanto inesperado que provoca reflexões sobre os caminhos dessas cantoras.

A análise conjunta e em perspectiva desses dez discos indica que, quando uma cantora troca o chip, ela ganha vigor, renovando tanto o fôlego como a admiração do público que a acompanha.

Dos dez discos, o caso mais exemplar é o de Humana, álbum lançado por Fafá de Belém em 5 de abril. Desde os anos 1970, a cantora paraense não apresentava um disco recebido com tanto entusiasmo e aclamação unânime.

Tanto que Humana vem sendo caracterizado como o Recanto de Fafá em alusão ao álbum de 2011 que deu injeção de ânimo na carreira de Gal Costa há oito anos. Em Humana, Fafá fechou o sorriso para mergulhar em repertório denso, cinzento, composto na contramão da solar imagem tropical com que a cantora é vista desde 1975.

Fafá trocou o chip, como fez Pitty em Matriz, quinto e melhor álbum solo de estúdio dessa roqueira de origem baiana. Neste disco eletrizante, lançado em 26 de abril, Pitty entrou na roda – com direito a uma explosiva conexão com a banda conterrânea BaianaSystem – e se renovou, conseguindo impactar público e críticos ao reprocessar sons e signos da Bahia natal sem saudosismo e com energia roqueira.

Também lançado em 26 de abril, Giro pôs Roberta Sá na roda rítmica do baiano Gilberto Gil, compositor que forneceu as 11 músicas de repertório inédito que balançou entre a cadência do samba e a levada do xote, soando mais sedutor nas faixas de tom nordestino. Giro é disco que cresceu em cena, gerando show de roteiro corajoso ao desencavar músicas enraizadas no fundo do baú de Gil.

Até então há dez anos sem lançar álbum solo, Nana Caymmi também deu voz a um compositor específico. No caso, Tito Madi (1929 – 2018), refinado estilista do samba-canção.

Lançado em 29 de março sob o fogo cruzado das redes sociais, por conta de incendiárias declarações de Nana sobre política e sobre a dinastia Caymmi, o álbum Nana Caymmi canta Tito Madi pairou soberano sobre as discussões. Mesmo sendo álbum reiterativo das virtudes da cantora, sem qualquer ruptura estética, ficou sobressalente a delicadeza com que Nana deu voz ao cancioneiro de Madi, destilando emoção sem cair no melodrama sentimental.

 Sobrinha de Nana, Alice Caymmi também acertou o ponto do mel e do fel de Electra, disco de voz e piano em que, com o toque de Itamar Assiere, músico já habituado às tradições da tia, a sobrinha desgarrada se confirmou grande cantora e mandou recados incisivos através das letras de músicas que, de tão esquecidas, soaram como inéditas.

Lançado em 27 de maio, Electra reconduziu Alice de volta ao universo da MPB sem ranços e com a maturação precoce de voz que havia sido desperdiçada com o pop genérico de disco anterior.

Nesse universo pop, Anitta frustrou expectativas ao beijar a mão do público gringo no quarto álbum, Kisses, lançado em 5 de abril. Com providencial dose de latinidade, Anitta seguiu a cartilha do mercado em álbum visual trilíngue que pareceu alinhar dez singles avulsos e que somente surpreendeu de fato no dueto da cantora com Caetano Veloso em canção cheia de graça que expia a sofrência com bossa.

Reencarnação do espírito tropicalista de Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto emergiu na última sexta-feira, 7 de junho, com Margem, terceiro título da marítima trilogia fonográfica dessa gaúcha acariocada. A sofisticação da artista deu sentido e frescor a um álbum formatado com sobras de disco de 2008, músicas já gravadas por Maria Bethânia e algumas boas inéditas.

Frescor é tudo o que Vanessa da Mata exalou no sétimo álbum de estúdio, Quando deixamos nossos beijos na esquina, lançado em 31 de maio. A compositora retomou o fôlego autoral que parecia ter perdido ao longo dos anos 2010. Mesmo sem trocar o chip, a cantora voltou renovada e apresentou um dos melhores discos da carreira, com safra luminosa de canções.

Na contramão, Ana Carolina decepcionou no mesmo 31 de maio ao apresentar o primeiro dos três EPs do álbum Fogueira em alto mar. Sem lançar álbum de estúdio há seis anos, a artista seguiu as regras do mercadão pop, abriu parceria com o (bom) baiano Bruno Caliman – sem que a parceria acrescentasse algo de relevante nos currículos da artista e deste compositor habituado a fornecer hits para astros do universo pop sertanejo – e, mais uma vez, reiterou a sensação de estar sem coragem para virar a mesa, abandonar fórmulas de sucesso e fazer jus ao já comprovado talento.

Por fim, também em 31 de maio, Zélia Duncan surpreendeu positivamente em álbum, Tudo é um, que a trouxe de volta ao pop folk que norteou a carreira da artista na década de 1990.

Tal como Vanessa da Mata, Zélia Duncan revitalizou chip antigo com resultado sedutor – no caso, por conta do conjunto de boas canções abordadas em tempo de necessária delicadeza.

No todo, os dez discos deixaram a sensação de que, com chip novo ou antigo, uma cantora deve se guiar pela bússola da deusa música, ignorando o aceno do mercado, para não se perder em alto mar…

Fonte: G1 

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